A imaginária brasileira tem suas origens diretamente ligadas à colonização portuguesa e à introdução das primeiras imagens sacras vindas da Península Ibérica. A evolução dessas imagens acompanha a própria história da colônia, marcada por fatores econômicos, políticos e socioculturais.
A primeira imagem sacra a aportar no Brasil foi uma escultura de Nossa Senhora da Esperança, trazida por Pedro Álvares Cabral. A imagem desembarcou em Porto Seguro, em 1500, participou das celebrações da primeira missa, mas não permaneceu no país, retornando a Portugal, onde hoje se encontra na Quinta de Belmonte.
As primeiras imagens sacras no Brasil colonial
Posteriormente, novas imagens sacras foram trazidas ao Brasil pelos missionários jesuítas, com a função de catequizar os povos nativos. Os fidalgos também contribuíram para a chegada de obras artísticas durante o processo de colonização.
São raros os documentos que registram a entrada dessas obras no século XVI, e poucas peças desse período se conservaram até os dias atuais. Isso se deve à ação do tempo, à falta de conservação adequada e à destruição intencional.
Durante o século XVII, os holandeses protestantes destruíram e profanaram igrejas na Bahia e em Pernambuco, causando a perda de inúmeras imagens sacras. O pintor holandês Franz Post retratou igrejas sem teto em Olinda, destruídas por incêndios propositais praticados pelos invasores.
A Sé da Bahia e outras igrejas baianas também foram profanadas, o que pode ter levado ao desaparecimento de valiosas imagens sacras do primeiro período da colonização.
As imagens sacras mais antigas documentadas no Brasil
Entre as imagens mais antigas com documentação relativa à sua chegada ao Brasil, destacam-se:
- São Francisco – trazida por Gonçalo Coelho em 1502 para Porto Seguro
- Nossa Senhora da Graça – encontrada por Catarina Paraguaçu em 1530, Salvador
- Nossa Senhora da Conceição (Virgem de Anchieta) – trazida por Martinho Afonso de Souza para Itanhaém, SP
- Nossa Senhora das Maravilhas – trazida para Salvador em 1552 pelo primeiro bispo do Brasil
- Nossa Senhora da Penha – trazida por Frei Pedro Palácios em 1558 ao Espírito Santo
- Nossa Senhora com o Menino, venerada como Conceição, de 1560
- Santo Antônio, de 1560, em São Vicente, SP
- Cristo Crucificado, de 1580, hoje no Museu do Carmo, Salvador
- Nossa Senhora de Guadalupe, de 1590, hoje no Museu de Arte Sacra de Salvador
- Nossa Senhora da Conceição, do século XVI, no acervo da Catedral Basílica de Salvador
Primeiras produções artísticas no Brasil colonial
Durante o período das feitorias e das capitanias hereditárias, praticamente inexistiram manifestações artísticas na colônia. O surgimento da produção artística está ligado à implantação do Governo Geral, em 1549, com a chegada de Tomé de Souza à Bahia.
Vieram com ele mestres pedreiros, carpinteiros, serralheiros, canteiros, oleiros e fabricantes de cal, mas não há registro de artistas. Pintores e escultores chegaram apenas anos depois, em número reduzido.
Em 1560, estava na Bahia o pintor jesuíta Manuel Álvares, responsável pelo frontispício da igreja do Colégio da Bahia. Outros nomes incluem Manuel Sanches e Belchior Paulo, ativo antes de 1600.
Primeiros escultores e a produção local de imagens sacras
Segundo D. Clemente Nigra, as primeiras imagens religiosas feitas no Brasil teriam sido confeccionadas em barro por João Gonçalo Fernandes (ou Viana), em 1560. Ele executou imagens em São Vicente enquanto cumpria pena.
Entretanto, Eduardo Etzel questiona a autoria comum dessas peças devido às diferenças estilísticas e de material, e não há documentos que comprovem a atribuição. Ainda assim, João Gonçalo aparece em documentos antigos como o primeiro escultor do Brasil.
Outro nome citado é o de Frei Francisco dos Santos, arquiteto e escultor do século XVI, embora nenhuma obra possa ser atribuída com segurança a ele.
Principais artistas da imaginária brasileira por período
Século XVI
- João Gonçalo Fernandes
- Frei Francisco dos Santos
Século XVII
- Frei Agostinho da Piedade
- Frei Agostinho de Jesus
- Frei Domingos da Conceição e Silva
Século XVIII
- Bahia: Francisco das Chagas, Félix Pereira Guimarães, Manoel Inácio da Costa, José Antônio de Araújo Lobo
- Minas Gerais: Mestre Piranga, Francisco Vieira Servas, Antônio Francisco Lisboa
Pernambuco: Antônio Splander Aranha, João Pereira, Luís Nunes - Rio de Janeiro: Manuel de Brito, Francisco Xavier de Brito, Valentim da Fonseca e Silva
Século XIX
- Bahia: Manoel Inácio da Costa, Domingos Pereira Baião, Bento Sabino dos Reis
- Pernambuco: Manuel da Silva Amorim
Influências religiosas, culturais e sociais na arte sacra brasileira
A propagação do culto aos santos no Brasil decorre da orientação do Concílio de Trento, da ação das ordens religiosas e do elevado grau de religiosidade popular. As esculturas sacras variam conforme época e região, influenciadas por fatores econômicos, sociais e geográficos.
As influências são predominantemente lusitanas, mas também espanhola, italiana, francesa e oriental, além de contribuições indígenas e africanas, especialmente na escultura, nos retábulos e na arquitetura religiosa.
Barroco, colonização e evangelização
A expansão colonial portuguesa esteve intimamente ligada à evangelização. A educação era monopólio dos religiosos, especialmente dos jesuítas, e a Contra-Reforma teve papel decisivo na modelagem da sociedade colonial.
No Brasil colonial, a arte é predominantemente religiosa. Os principais centros produtores foram Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Minas Gerais e Pará.
Caracterização técnica da escultura sacra por período
O texto descreve características específicas das imagens dos séculos XVI e XVII, do século XVIII e do século XIX, considerando postura, volumetria, panejamento, policromia, materiais, expressividade e técnicas construtivas.
Também são analisadas as diferenças regionais entre as imagens baianas, pernambucanas, paulistas e mineiras, destacando materiais, estilos, influências e acabamentos.
Imaginária brasileira como síntese cultural
A imaginária brasileira colonial resulta da fusão entre religião, política, economia e cultura, com forte presença da Igreja, das elites e das irmandades leigas no mecenato artístico.
A arte sacra colonial brasileira expressa não apenas fé, mas também relações de poder, identidade cultural e estratégias de evangelização, consolidando-se como um dos pilares do patrimônio cultural do Brasil.













